Thursday, November 30, 2006

Máquinas de Vigiar

No começo do século, Freud (1972:11-44) já previa a reversão da pulsão do olhar no seu oposto (a pulsão de sentir-se olhado). Isso significava, na linguagem das perversões, que voyeurismo e exibicionismo eram duas faces de uma mesma moeda: olhar não era outra coisa que mirar-se no espelho do olho do outro. Posteriormente, Merleau-Ponty e Lacan, para ficar apenas nomes mais marcantes, retomaram o tema freudiano da reversibilidade do olhar entre os pólos vidente e visível. O mesmo campo escópico que constitui o sujeito – explicaram eles - é também o local onde o sujeito fracassa como fonte originária, como foco, como "ponto de vista" pois não é o olhar senão um quiasma, ponto de cruzamento e de reversibilidade do eu e do outro, dupla inscrição do dentro e do fora (Merleau-Ponty, ]97l :235-37; Lacan, 1985:90-115). Toda essa conceituação, entretanto, que no discurso abstrato da filosofia e da psicanálise aparece como esforço de retórica ou jogo de expressão, resulta claramente colocada em evidência nas máquinas de vigiar e concretizada na ambigüidade ocular do Panóptico universal. A multiplicação das câmeras de vigilância na paisagem social põe a nu esse desdobramento do ponto de vista, não sendo mais de ninguém o olho do outro, mas apenas uma virtualidade escópica que pode ser ocupada por qualquer um. Agora, com a prótese ocular, com o olho sintético e infográfico da máquina, não é mais uma figura de linguagem dizer, como os psicanalistas, que as pedras nos vêem. Os olhos estão não apenas fora de nós, mas também fora do vivente como espécie. "Por detrás do muro, já não vejo mais o cartaz; diante do muro, o cartaz se impõe a mim, sua imagem me percebe". Não é Lacan quem fala; é Virilio (1988: 13l).

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